Entre o louco e o certinho, fico com o primeiro. Entre Lobão e Zezé di Camargo, prefiro mil vezes
uma entrevista do velho lobo. O cordeiro não me interessa tanto. Os cordeiros são previsíveis e do
óbvio eu quero distância. Lembro quando se criou na Fórmula 1 uma rivalidade entre Senna x Piquet.
Tinha que escolher um ou outro. E eu escolhi o Piquet. Não necessariamente como piloto, mas principalmente
como persona. Preferi o que ao ser campeão do mundo, ao invés de agradecer a Deus e a família, dizia
que “ser campeão do mundo não muda nada na sua vida, no dia seguinte você acorda, sente dor de barriga,
peida...”. Ou que, ao ser perguntado pelo repórter se ia correr pra ganhar, respondia na lata: “Não,
vou correr pra chegar em 9º”. Há pouco tempo encontrei Nelson Piquet numa festa e fui falar com ele.
Me apresentei, disse que era seu fã e tal. E ele simplesmente ignorou meu elogio. Disse um “a-hãn” cujo
subtexto era claramente “foda-se”. Podia ter me decepcionado, mas, pelo contrário, o admirei ainda mais.
O cara de quem eu gostava na infância justamente pela sua personalidade não era um personagem, era autêntico.
Não que Piquet ou Lobão sejam loucos no sentido literal da palavra, de rasgar dinheiro ou babar na gravata.
Quando digo “louco” me refiro ao que contesta, ao que contradiz, ao que não se contenta com o lugar comum,
ao que bota o dedo na ferida ou simplesmente tem sua própria maneira de agir, não seguindo normas e
regras pré-estabelecidas por alguéns. Dentro desse raciocínio, Chico Buarque tá incluído no time. Caetano.
Paulo Francis. Peréio. Até Silvio Santos tem vaga, jogando em outra posição. Talvez fosse mais justo chamar
de “não-careta”. Porque caretice é um estado de espírito. Não tem nada a ver com sexo, drogas ou rock´n´roll.
Conheço gente que nunca colocou sequer uma gota de álcool na boca e é de uma loucura capaz de fazer
Glauber Rocha se revirar de inveja no túmulo. Ao mesmo tempo, sei de pessoas da Bolsa de Valores, gente
engomadinha, que progride em todas as carreiras, mete a napa, mas é tão careta que bota o Padre Marcelo
Rossi no chinelo. Loucura é que nem estilo: ou você tem ou você não tem.
Todo mundo tem um lado Gandhi e outro João Gordo. Não sou estudioso da mente humana, longe de mim
querer ser um psicólogo ou conhecedor profundo do assunto. Mas como espectador vou sempre preferir os
depoimentos do Romário aos do Kaká. “Entrou agora no ônibus e já quer sentar na janela”, disse o
Baixinho após atrito com um certo ex-técnico do Fluminense. Se fosse o Kaká talvez tivesse dito: “Deus
vai me ajudar e eu tenho fé que vou recuperar meu espaço, se Deus quiser, graças a Deus”... papo tão
chato que nem Deus agüentaria. É isso. Os caretas são chatos. E, dizia Cazuza, “não há perdão para o chato”.
Coloque um disco do Roberto Carlos dos anos 70 e depois o mais recente. A diferença é brutal. Talvez só
Tim Maia (o mais louco dos loucos) tenha mantido a genialidade dentro da caretice, afinal, seus discos da
fase “careta” são obras-primas. As aspas foram obrigatórias e assinam embaixo do que eu disse antes.
A loucura nada tem a ver com o que a pessoa ingere. Durante sua fase Racional, Tim ficou limpo. Não bebia,
não cheirava nem mentia um pouquinho, mas potencializou seu suíngue com dois trabalhos incríveis
(agora três, já que um foi achado por aí e deve estar disponível para download).
Mas mesmo os loucos precisam manter os pés no chão. Nem todo mundo é um Mick Jagger, que vive provando
que um homem aos 60 anos pode ter passado por tudo, fazer rock´n´roll e ainda ser magro! Ele e Keith Richards
(que garante nunca ter tido problemas com drogas, só com a polícia) divergem de colegas roqueiros como
Jim Morrison, Janis Joplin, Brian Jones e Jimmy Hendrix, que ao morrer assinaram a tese de que 29 anos talvez
seja a idade média ideal para se morrer de overdose. Para o mais fissurado dos fãs talvez soe como heroísmo.
Roquenrrol! Atitude! Mas para mim soa como patético. Morrer de overdose é como dar um tiro no pé.
Um atestado de uma luta perdida para si próprio. E, como bem disse o maluco beleza Raul Seixas, “não se vence
uma guerra lutando sozinho”.
Trazendo para tempos atuais, chego em Amy Winehouse. Doida de pedra. A melhor cantora branca surgida nos
últimos tempos. E bota últimos nisso! Tem 24 anos e há pelo menos dois existe em Londres uma bolsa de
apostas sobre quando ela vai morrer. Tem gente aplicando dinheiro ali, contando os dias pra autora de
“You Know I´m No Good” bater as botas para poder meter a mão naquela bufunfa.
Uma pena. Mas Amy extrapolou os limites e sua loucura começa a beirar o ridículo. Definitivamente fumar crack
não combina com uma vencedora de Grammy. Fumar crack me lembra aqueles meninos de rua do centro
de São Paulo, que aparecem com caras quadriculadas e vozes de pato no Globo Repórter. Claro que dois discos
são quase nada pr´um talento como Amy. Mas talvez seja a hora. Eu não estou rogando praga! Só prefiro ficar
com míseros dois discos geniais do que assistir pela TV à decadência de alguém que ousou ocupar na minha
estante um espaço antes destinado somente às maravilhosas divas da soul music. De Michael Jackson tô legal!
Já que ela insiste em dizer “no, no, no” pra rehab prefiro lembrar dela no futuro como “aquela inglesa com
voz de negra americana”, do que daquela doida patética que se igualou à Britney Spears na pagação de mico.
No closet de Amy, o paletó de madeira já está fora do armário para tirar o cheiro de mofo. Feliz ou infelizmente.
Bruno Mazzeo
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